quinta-feira, outubro 23, 2025

TERAPIA

   


                      No consultório de minha terapeuta.
         Um teaser... ou um prefácio, como se dizia antigamente.
Talvez o leitor atual não saiba, a doutora Ana Lisa, gaúcha de Erechim, de há muito é minha, digamos, consultora para assuntos depressivos...O porquê do nome? Fácil...ela analisa.

- Olá seu Dedé, entre, acomode-se, relaxe no divã. Tudo bem?
Enquanto ajeitava meu já desengonçado corpo, pensei: Se estivesse tudo bem, eu não estaria ali...
Mas, preferi ficar só no pensamento, e respondi:
- Vivendo e aprendendo a jogar, doutora Ana Lisa. É difícil conviver com desonestidade, desgraças, tragédias que acontecem à nossa volta e isso me entristece.
Em resposta, silêncio. – Prossegui:
- Por aqui, violência crescente, insegurança; a intolerância levando à odiosa discriminação, confrontação de ideias, uns não querem aceitar as opiniões alheias, isso somado à endêmica corrupção, com todos os envolvidos se dizendo inocentes. E mais ainda, líderes mundiais tresloucados, insanos, destruindo, matando inocentes, chegando até a ameaçar o uso de armas nucleares para dar um fim ao que parece não ter dado certo, a raça humana. 
Ela interrompeu:
- Compreendo sua indignação, infelizmente estamos em uma época de transição, tempos difíceis e, sem entrar no mérito das questões, entendo que cada um de nós deve fazer o melhor, como dizem, fazer a nossa parte, exemplificar, à espera de que o bem prevaleça.
Comentário mais neutro, impossível - pensei - mesmo porque, ela já havia deixado claro: o escopo da terapia é confrontar o paciente com as verdades da vida. Ainda assim, uma dúvida permanecia:
- Doutora, será que algum dia conseguiremos conviver em paz com aqueles que achamos “diferentes” e vice versa ou o lema será para sempre “o inimigo mora ao lado”?
- Perguntas que merecem uma reflexão, mas que, de minha parte, por hora, ficam sem resposta–disse a doutora Ana Lisa, acrescentando:- O que posso garantir é que nosso tempo, por hoje, terminou, agende com a recepcionista sua próxima sessão, e leve sua receita de Lexapro...

Levantando-me com alguma dificuldade, saí de lá sentindo que nossas conversas estão ficando mais curtas, um convite para refletir, mas com a certeza de que as respostas estão comigo e se apresentarão no momento certo.

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