sábado, agosto 12, 2017

AQUELES DIAS... ...


Sabe aqueles dias em que você sai da cama com a sensação de não ter dormido nada e de fato não dormiu? Pois é, hoje era um desses dias. As pernas não obedeciam ao comando do cérebro que, por seu lado, não estava a fim de dar ordens pra nada. Quase um estado letárgico. 
Mas, ao sair de casa, percebi que o sol teimava em me acompanhar, iluminando, clareando ainda mais os caminhos, como a me mostrar que a vida estava presente, à minha espera, só aguardando que eu também fizesse a minha parte. 
Ao mesmo tempo, ao lado do carro, percebi aquele grupo de atletas da madrugada, fazendo a corridinha básica antes do trabalho. 
Não era uma novidade, eles estavam sempre por ali, mas hoje, coincidentemente, essa moçada “despertou” ainda mais minha atenção. 
Tenho certeza que esse quadro não é estranho pra você. E é assim mesmo que tudo funciona. Sempre um acontecimento ou alguém aparece, nos motivando para que a gente desperte para a vida. É tipo um sinal que vem, sabe-se lá de onde, a dizer: “Cara, que é isso? Sai dessa, se liga, respira fundo e vai em frente que você é o dono de sua vontade e é preciso exercitá-la sempre!”

segunda-feira, fevereiro 06, 2017

DE VOLTA AO DIVÃ.

 
Vocês e eu, é claro, já estávamos sentindo falta da Dra. Ana Lisa, a minha psicoterapeuta. É necessário explicar que nem eu nem ela desistimos: eu, da terapia, e ela de me atender.
Simplesmente, as férias de final de ano interromperam temporariamente as consultas. Nessa época, ela vai visitar os parentes que ainda residem em Vacaria, no Rio Grande do Sul (já comentei que ela é nascida nessa cidade). Lá ainda estão remanescentes dos primeiros Lambruscone que imigraram da Itália no século dezenove. Daí o nome da doutora, Ana Lisa Lambruscone.
Dito isto, cá estou de volta ao consultório e percebo que ela também aproveitou para dar uma modernizada no ambiente.
- Está bem melhor agora doutora –comentei, já deitado numa chaise longue mais confortável.
- Obrigada seu Dedé, já não era sem tempo. Um ambiente assim, mais “clean”, facilita psicologicamente a interação. Bem, mas vamos ao que interessa. Fale... como o senhor está se sentindo...
- A bem da verdade, doutora, início de ano, novas perspectivas, seria o ideal para gerar otimismo. -  Respirei fundo e prossegui:
- Infelizmente, tragédias aconteceram e ainda, a crescente onda de intolerância, preconceito,  fanatismo, que tomou conta de grande parte dos chamados "seres humanos", encenaram uma verdadeira tragicomédia nesse imenso palco onde atuamos, trazendo de volta velhos questionamentos: o porquê disso, a razão daquilo. Isso abala e mexe com as emoções de qualquer pessoa, até as mais insensíveis não é mesmo?
- Evidente, seu Dedé. Nossas conversas servem para levar em consideração todos os fatores que entram em jogo em um quadro clínico e sua consequente cura. A analogia feita com uma peça tragicômica, é uma maneira sensata de abordagem, porém, não devemos perder a esperança jamais. - E após uma pequena pausa, disse:
- Mesmo assim, sinto uma sensível melhora no seu modo de encarar as situações, por consequência, no seu quadro psicológico.
O tempo de nossa consulta passou célere e, enquanto ela se levantava da poltrona, comentei satisfeito:
- Obrigado, mas devo isso à sua competência doutora Ana Lisa e, se me permite dizer, nunca um nome esteve tão bem ligado à uma profissão.
-  Então tá, seu Dedé – disse quase sorrindo – até nossa próxima sessão.
-  Até doutora.
Já na rua, caminhando, pensava que o mais interessante é a coincidência não se restringir apenas ao nome... o sobrenome Lambruscone, também indicava que ela não desprezava um bom vinho.

sábado, novembro 19, 2016


 Que lugar é esse?

-Doutora, é verdade que cada um de nós tem um lugar onde ficam guardados nossos segredos mais íntimos?
Foi a primeira pergunta que fiz, iniciando mais uma sessão com minha psicoterapeuta, a Dra. Ana Lisa, isso depois de ter esperado mais de hora para ser atendido - ela estivera conversando com um paciente um pouquinho mais problemático.
- É verdade seu Dedé. Dentro de cada um de nós, há um lugarzinho muito especial, tipo bauzinho psíquico com emoções de difícil controle, chamado inconsciente...
- Não doutora – interrompi bruscamente – Eu não estou a fim de falar de inconsciente, alma, espírito, atma, ou coisas desse tipo, não. Quero falar, assim no popular, de um lugar abstrato que talvez esteja localizado lá no fundo, no âmago do coração. Seria, talvez, um coração dentro do próprio coração. É lá que eu acho que estão bem guardados nossos medos, frustrações, inseguranças, sonhos não realizados, enfim tudo aquilo que só nós mesmos sabemos.
- Bem, já que o senhor não quer conversar sobre isso à luz da psicanálise, vamos em frente, continue.
- Pois é, pensei muito sobre isso - prossegui com ar professoral – e entendo que o mais interessante de tudo é que a chave que abre esse nosso cofrinho existencial não está conosco. Quem consegue abrir é uma outra pessoa e nós não sabemos quando esse alguém vai aparecer para girar a chave na fechadura, abrir a porta e deixar explodir, desabrochar em felicidade ou não, tudo o que lá estava depositado como um segredo guardado a sete chaves.
- Analisando bem – disse ela - o senhor tem razão, mesmo porque se fôssemos nós, não haveria nada armazenado, simplesmente de tempos em tempos libertaríamos todos esses sentimentos. Fácil, não?
Ela voltou-se para ver as horas no relógio da parede... nosso tempo estava terminando. E logo me ocorreu - enquanto me ajeitava melhor no divã - que agora só faltava a doutora fazer alguma citação, como era de praxe.
- Por sinal seu Dedé, há uma canção portuguesa (Argh! Pelas perucas do Mauro Beting, eu estava certo) - cujo título ilustra bem o tema de hoje: “Nem às paredes confesso”. Só que, no caso mencionado, a pessoa não confessa nem às paredes e nem a ela própria. Sendo mais clara, há situações, há emoções, as quais nem a nós mesmos conseguimos revelar, não conseguimos fazer eclodir por mais que tentemos, daí a necessidade do certo alguém, quem sabe a própria psicoterapeuta. Talvez, em outra oportunidade, poderemos voltar ao assunto, mas aí sim na visão da psicanálise mesmo - ela concluiu, ao mesmo tempo em que se levantava e se despedia com aquele sorriso enigmático de sempre.

- Até a próxima doutora.