segunda-feira, setembro 14, 2026

O "diagnóstico" da doutora.

          
 E lá vou eu para mais uma consulta com minha terapeuta, a doutora Ana Lisa. No início do tratamento, minha realidade era esta: eu passava as sessões sentado de costas para a doutora e, com o tempo, evoluí... circulava em pé pela sala.  
Só que, desta vez, estou com uma robofoot a imobilizar meu pé esquerdo. Há dificuldade para chegar, pois são três degraus a subir antes de alcançar a porta.
Ao abrir, a reação dela foi imediata. Surpresa, exclamou:  
—  Seu Dedé, o que é isso? O que aconteceu? Conte-me tudo  —  disse.
Já na sala, me acomodei na poltrona, de frente para ela e  - reticente -  esclareci: Nada muito grave —  sorrindo:  — Apenas uma fascite plantar, um esporão no calcanhar... uma rutura parcial.
A doutora interrompeu: Nada grave? Se o senhor não seguir as recomendações do ortopedista, as consequências serão piores. — E, mudando de assunto: — Seu emocional foi abalado por isso? 
—  Não  — afirmei convicto, e prossegui: — O que está me incomodando agora, nesse período eleitoral, são essas disputas entre esquerda e direita. Basta abrir as redes sociais e ver o verdadeiro cabo de guerra: de um lado, a oposição acusa a infiltração comunista ; de outro, lembram do fantasma do fascismo, nas figuras de Hitler, Mussolini e Franco.
—  Olha, seu Dedé, é preciso entender que esquerda e direita não levam a isso. Agora, quando aliadas ao extremismo, ao fanatismo e ao radicalismo, viram caminhos fáceis para o comunismo, de um lado; e o fascismo, do outro, pois anulam qualquer chance de diálogo democrático,  -  a doutora Ana Lisa resumiu.
Compreendo -  concordei e arrematei:  -  Sabe doutora, além disso há um quadro trágico atualmente: corrupção, roubalheira desenfreada, inversão de valores e, o pior, há quem pense até em uma "revolução"...
-  Muita calma nessa hora, seu Dedé  -  disse ela, completando - quem viveu aquela época e eu me coloco entre esses, sabe que um regime de exceção, uma ditadura, uma autocracia é, desculpe o termo, um cancro social... e vamos parar por aqui.
Com um olhar, minha terapeuta deu a entender que nosso tempo tinha terminado.
Agradeci o "diagnóstico", embora soubesse que, para essa doença coletiva, não existe receita médica.  
Despedi-me e tomei o rumo de casa querendo, o mais breve possível, me livrar do peso morto da robofoot, e não sei bem o porquê, me peguei pensando: "Onde está o dinheiro? O gato comeu", "Podres poderes", "Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos..."

  Nota: Talvez o leitor atual não saiba, mas minha terapeuta - a doutora Ana Lisa é -  há muito  - minha consultora para assuntos depressivos...

quarta-feira, agosto 19, 2026

O BOM E O MAU.


Um padeiro queria conhecer um mestre e este foi à padaria, disfarçado de mendigo. Lá chegando, pegou um pão e começou a comer.
O padeiro o espancou e o atirou à rua. 
Um discípulo que chegava interpelou: "Não vês que expulsastes o mestre que querias conhecer"?
Arrependido, o padeiro implorou: "O que posso fazer para que tu me perdoes, mestre?"  
"Nos convide para um banquete amanhã", foi a resposta.
Na manhã seguinte, mestre e discípulo foram à casa do padeiro e encontraram um farto banquete. Em meio ao ágape, o discípulo perguntou: "Mestre, como posso distinguir o homem bom, do mau?"
"Basta olhar este padeiro", respondeu o mestre. "É capaz de gastar dez moedas de ouro em um banquete porque sou célebre,  mas é incapaz de dar um pão para alimentar um mendigo com fome...

(Autor desconhecido)


sábado, agosto 15, 2026

PRECE PODE SER TAMBÉM OFERENDA


             
Talvez você não saiba, mas há dois tipos de prece: 
O primeiro tipo é aquele onde pedimos que determinadas coisas aconteçam, tentando dizer ao CRIADOR o que ELE deve fazer...  
Não damos nem tempo nem espaço, queremos as coisas realizadas do nosso jeito e não no tempo DELE. 
Ficamos, então, com a sensação de que não fomos ouvidos.
O segundo tipo é aquele em que, mesmo sem compreender os caminhos do ALTO, deixamos que se cumpram em nós seus desígnios. Pedimos que nos poupe do sofrimento, que nos dê saúde, felicidade, mas, ao mesmo tempo, nos oferecemos como instrumentos de SUA vontade. 
Resumindo, quando entendemos que a vontade do CRIADOR se manifesta em nós, compreendemos nossa própria vida.
(Autor desconhecido)

segunda-feira, novembro 10, 2025

Nem FREUD explica.

Um teaser ... ou pode ser um prefácio, como se dizia antigamente:
Talvez o leitor atual não saiba, mas a doutora Ana Lisa, gaúcha de Erechim, é há muito, digamos, minha consultora para assuntos depressivos. Por que do nome? Fácil... ela analisa...

E cá estou, no consultório da doutora Ana Lisa, para mais uma sessão.
Na antessala, e pela demora, imagino que há algum paciente com mais "problemas" do que os meus.  
Enfim, abre-se a porta e sai uma senhora, com os olhos marejados, sinal de que eu estava certo quanto à demora.
Convidado a entrar, fui de imediato me recostando no bendito divã, e depois dos devidos cumprimentos. Respirei fundo... e perguntei:  
Doutora, o que a senhora acha disso aqui? "O que é de um homem que não valoriza suas raízes, não cultua sua origem e se esquece, ou finge que se esquece, de onde veio"?
- Creio que é um axioma com muitas verdades. - disse e seguiu
- O senhor está muito filosofal hoje... mas o que isso tem a ver com nossa conversa?
- Explico, um amigo, aliás mais do que amigo, grafou e eu postei, em destaque, no meu blog porque entendi ser a melhor definição para a conduta de um ser humano. 
Com certeza, seu Dedé, são palavras que exprimem, em sua essência, uma forma correta de vida. - Ela fez uma pausa e eu aproveitei:
- Pois é doutora, o que me incomoda é que não vemos muito disso por aí.
Concordo - disse ela, e prosseguiu - Seu Dedé, o senhor deve saber que, no ser humano, não existe a perfeição, cada um tem direito à escolha, e não podemos julgar esse comportamento ou outros. 
Pois é... isso não deveria me incomodar, mas incomoda, talvez por meu estado depressivo. Engoli seco e emendeiPor exemplo, quando a mulher ou o homem declina de usar seu próprio sobrenome para ser reconhecido pelo sobrenome de seu parceiro. 
Sem dar tempo para  ela retrucar, acrescentei: 
- E mais, como desculpa dizem que isso  traz maior visibilidade, status, escondem o sobrenome familiar por um outro mais "atraente", tipo marketing, merchandising... e "esquece ou finge que esquece de onde veio"...
A doutora Ana Lisa revirou os olhos, fez uma pequena pausa, respirou fundo e arrematou:
- Vamos melhorar seu medicamento e, com o tempo, essas ideias não irão mais incomodá-lo. Concorda?
Assenti com a cabeça, mas não pude deixar de completar: 
Imagine doutora se eu trocasse o Gomes por Rockfeller,  Rothschild, Raskólnikov*...  seria, no mínimo, bizarro. Porém - completei sorrindo: jamais usaria o Trump... 
Dedé Trump...hum...
E, antes que ela me expulsasse do consultório, levantei, agradeci e fui saindo sem esquecer de pegar, com a recepcionista, uma nova receita...

*(Personagem de "Crime e Castigo", Dostoiévski)

quinta-feira, outubro 23, 2025

TERAPIA

   


                      No consultório de minha terapeuta.
         Um teaser... ou um prefácio, como se dizia antigamente.
Talvez o leitor atual não saiba, a doutora Ana Lisa, gaúcha de Erechim, de há muito é minha, digamos, consultora para assuntos depressivos...O porquê do nome? Fácil...ela analisa.

- Olá seu Dedé, entre, acomode-se, relaxe no divã. Tudo bem?
Enquanto ajeitava meu já desengonçado corpo, pensei: Se estivesse tudo bem, eu não estaria ali...
Mas, preferi ficar só no pensamento, e respondi:
- Vivendo e aprendendo a jogar, doutora Ana Lisa. É difícil conviver com desonestidade, desgraças, tragédias que acontecem à nossa volta e isso me entristece.
Em resposta, silêncio. – Prossegui:
- Por aqui, violência crescente, insegurança; a intolerância levando à odiosa discriminação, confrontação de ideias, uns não querem aceitar as opiniões alheias, isso somado à endêmica corrupção, com todos os envolvidos se dizendo inocentes. E mais ainda, líderes mundiais tresloucados, insanos, destruindo, matando inocentes, chegando até a ameaçar o uso de armas nucleares para dar um fim ao que parece não ter dado certo, a raça humana. 
Ela interrompeu:
- Compreendo sua indignação, infelizmente estamos em uma época de transição, tempos difíceis e, sem entrar no mérito das questões, entendo que cada um de nós deve fazer o melhor, como dizem, fazer a nossa parte, exemplificar, à espera de que o bem prevaleça.
Comentário mais neutro, impossível - pensei - mesmo porque, ela já havia deixado claro: o escopo da terapia é confrontar o paciente com as verdades da vida. Ainda assim, uma dúvida permanecia:
- Doutora, será que algum dia conseguiremos conviver em paz com aqueles que achamos “diferentes” e vice versa ou o lema será para sempre “o inimigo mora ao lado”?
- Perguntas que merecem uma reflexão, mas que, de minha parte, por hora, ficam sem resposta–disse a doutora Ana Lisa, acrescentando:- O que posso garantir é que nosso tempo, por hoje, terminou, agende com a recepcionista sua próxima sessão, e leve sua receita de Lexapro...

Levantando-me com alguma dificuldade, saí de lá sentindo que nossas conversas estão ficando mais curtas, um convite para refletir, mas com a certeza de que as respostas estão comigo e se apresentarão no momento certo.