E lá vou eu para mais uma consulta com minha terapeuta, a doutora Ana Lisa. No início do tratamento, minha realidade era esta: eu passava as sessões sentado de costas para a doutora e, com o tempo, evoluí... circulava em pé pela sala.
Só que, desta vez, estou com uma robofoot a imobilizar meu pé esquerdo. Há dificuldade para chegar, pois são três degraus a subir antes de alcançar a porta.
Ao abrir, a reação dela foi imediata. Surpresa, exclamou:
— Seu Dedé, o que é isso? O que aconteceu? Conte-me tudo — disse.
Já na sala, me acomodei na poltrona, de frente para ela e - reticente - esclareci:— Nada muito grave — sorrindo: — Apenas uma fascite plantar, um esporão no calcanhar... uma rutura parcial.
A doutora interrompeu: — Nada grave? Se o senhor não seguir as recomendações do ortopedista, as consequências serão piores. — E, mudando de assunto: — Seu emocional foi abalado por isso?
— Não — afirmei convicto, e prossegui: — O que está me incomodando agora, nesse período eleitoral, são essas disputas entre esquerda e direita. Basta abrir as redes sociais e ver o verdadeiro cabo de guerra: de um lado, a oposição acusa a infiltração comunista ; de outro, lembram do fantasma do fascismo, nas figuras de Hitler, Mussolini e Franco.
— Olha, seu Dedé, é preciso entender que esquerda e direita não levam a isso. Agora, quando aliadas ao extremismo, ao fanatismo e ao radicalismo, viram caminhos fáceis para o comunismo, de um lado; e o fascismo, do outro, pois anulam qualquer chance de diálogo democrático, - a doutora Ana Lisa resumiu.
Compreendo - concordei e arrematei: - Sabe doutora, além disso há um quadro trágico atualmente: corrupção, roubalheira desenfreada, inversão de valores e, o pior, há quem pense até em uma "revolução"...
- Muita calma nessa hora, seu Dedé - disse ela, completando - quem viveu aquela época e eu me coloco entre esses, sabe que um regime de exceção, uma ditadura, uma autocracia é, desculpe o termo, um cancro social... e vamos parar por aqui.
Com um olhar, minha terapeuta deu a entender que nosso tempo tinha terminado.
Agradeci o "diagnóstico", embora soubesse que, para essa doença coletiva, não existe receita médica.
Despedi-me e tomei o rumo de casa querendo, o mais breve possível, me livrar do peso morto da robofoot, e não sei bem o porquê, me peguei pensando: "Onde está o dinheiro? O gato comeu", "Podres poderes", "Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos..."
Nota: Talvez o leitor atual não saiba, mas minha terapeuta - a doutora Ana Lisa é - há muito - minha consultora para assuntos depressivos...

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