segunda-feira, novembro 18, 2013

INOCENTES?












- Ah, doutora Ana Lisa, é ao menos cômico, se não fosse trágico, ouvir os brados desses envolvidos no chamado mensalão, alegando inocência.
Assim iniciei mais uma visita à minha terapeuta, a doutora Ana Lisa, que já sabe o quanto me revoltam, me desequilibram, esses acontecimentos onde a honestidade não é regra. Já estirado no divã há alguns minutos, eu não parava de vociferar contra a situação atual, enquanto ela mantinha silêncio.
- O mesmo acontece com o esquema da máfia do ISS na Prefeitura paulistana, eles alardeiam inocência – prossegui.
Aí, ela interveio:
- Mas são situações diferentes, seu Dedé.
- Diferentes no nome, mas no conteúdo são iguais. É a corrupção à solta, é o dinheiro comprando tudo e todos – eu respondi.
- Acalme-se – disse ela, e completou: - Infelizmente na política e na administração pública, isso parece ser uma tendência mundial.
- Pode ser doutora, é o sinal dos tempos como dizem, mas o que nos interessa é o que acontece por aqui. Total descrença nos homens que deveriam dar o melhor exemplo.  
- Concordo.
- Tem mais, o tal de propinoduto, envolvendo multinacionais na venda de trens e peças para o governo paulista. Outro exemplo da malversação do dinheiro público.
- Sem dúvida, o senhor está mais do que certo. Mas, no que diz respeito à terapia e ao paciente, há necessidade de se manter mais calmo, mais tranqüilo, essas situações não podem e não devem interferir no seu psicológico.
- Doutora, mas eles, todos eles, se dizem inocentes! Inocentes? Inocente sou eu, inocentes são todos os cidadãos que insistem em acreditar na classe política, uma classe desclassificada. Inocente sou eu, a senhora, somos nós que confiamos em quem deveria cuidar da administração do dinheiro público.
Respirei profundamente, me acomodei melhor, tentei relaxar. De repente, ela disse em tom de revelação:
- Seu Dedé, se o senhor acha que somos inocentes, talvez seja melhor, ingênuos, eu entendo que encontrei os culpados.
- Culpados de quê, como assim, quem são?
- Somos nós também. Inocentes no sentido de neles acreditar, e culpados porque, através do voto, colocamos essas pessoas nos cargos públicos, são nossos representantes. Percebe? Os políticos estão lá porque foram eleitos, a maioria deu o voto a eles. E eles indicam os auxiliares, os assessores e por aí vai... Não pense que devemos, a partir disso, condenar a democracia. Os que usam o cargo público em benefício próprio devem ser julgados e condenados pela justiça.    
- Sábias palavras doutora. A senhora, com a competência que lhe é peculiar, definiu a questão. Confesso que não tinha essa visão sobre o assunto.
- Pense nisso, concluiu ela – encerrando nossa conversa.
Ao deixar o consultório, saí certo de que podemos ser, ao mesmo tempo, inocentes e culpados, ao menos terapeuticamente falando... ... 

domingo, setembro 15, 2013

TERAPIA INFRINGENTE?

Não havia se passado uma semana, e lá estava eu na sala de espera do consultório da Dra. Ana Lisa, minha psicanalista, folheando revistas médicas e outras mais antigas, inclusive “O Cruzeiro”, “Cinelândias”, “Revistas do Rádio”... Cá entre nós, não sei de onde vem tanto mofo, talvez, relíquias da família. De repente, abre-se a porta e surge a figura indefectível da doutora, aquele olhar enigmático por trás das lentes de contato.
- Bom dia, por favor, entre. - E antes que eu pudesse descansar meu corpo exausto naquele já meu conhecido divã, ela adverte:
- Pois é seu Dedé - às vezes ela era formal demais - não gostei nada de sua atitude em nossa última sessão. O senhor saiu furtivamente e eu fiquei aqui falando sozinha...
- Bom dia Dra. Ana Lisa e perdão, a senhora, melhor dizendo, você – eu disse, querendo retomar a informalidade - tem razão. Fui um tanto mal educado, reconheço. Fique tranqüila, não tenho nada contra a terapia, mas havia um compromisso profissional inadiável, já estava em cima da hora e...
- Certo seu Dedé, mas espero que isso não mais aconteça, afinal o nosso compromisso, ou seja, sua terapia deve ter prioridade. Acomode-se. 
Ajeitei-me o melhor possível, semicerrei os olhos e aguardei.
-  Pode falar, conte-me tudo! – Ela foi incisiva.
- Ah, tantas novidades, ou melhor dizendo, dúvidas nascidas desses últimos acontecimentos. Por exemplo: um deputado presidiário que não tem o mandato cassado... o “épico” julgamento do mensalão... os embargos infringentes... a espionagem norte-americana, tantas idas e vindas que me sinto até embargado, não juridicamente é claro.
- Entendo – disse ela – isso acontece de tempos em tempos. Como dizem atualmente, é a fase. Esses debates, essas discussões, fazem parte do jogo democrático, não se incluindo aí a corrupção e muito menos a intervenção do “Big Brother” do mundo, dando uma espiadinha em assuntos alheios.
- Sabe, tenho a impressão de que estamos sendo testados, colocados à prova.
- Tal e qual em sua vida pessoal, seu Dedé?
- Isso mesmo. Tudo isso remete àquela conversa sobre existencialismo: o que estamos fazendo aqui, por que estamos aqui?  O porquê disso, o porquê daquilo. Nos últimos dias – prossegui – medito, dito a mim, seja lá o que isso quer dizer, buscando encontrar respostas, mas volto sempre à estaca zero. Sinceramente, a única certeza que tenho é que a verdade, nunca saberemos.
- Não seu Dedé, essa certeza não é e não será a única, muitas outras virão no decorrer do tempo. Veja bem, nossa conversa derivou dos assuntos políticos para o seu lado pessoal, foi traçado um paralelo interessante, isso já é um avanço em sua terapia. A propósito, lembrei de uma citação que pode levar o senhor à uma boa reflexão sobre esses questionamentos: “Nada parece verdadeiro que não possa parecer falso”.*  Pense nisso.
Percebi que nossa conversa, por ora, havia terminado. Aliviado, me ergui e me despedi, certo de que a resposta aos meus porquês poderia estar naquelas palavras. Ou não...


*Frase do ensaísta, filósofo e escritor francês Michel Eyquem de MONTAIGNE. (1533/1592)

quinta-feira, agosto 29, 2013

A TORRE DE BABEL É AQUI.

Percorrendo caminhos, navegando por mares já antes navegados, de repente me ocorreu um pensamento e veio a certeza de que a bíblica torre de babel é, na verdade, o nosso mundo. Culturas, línguas, etnias, comportamentos diferentes, formam esta “confusão” onde a humanidade está instalada. Não fosse a língua inglesa fazer o papel de comunicador universal, por ser o idioma das maiores potências e por outras razões que, no momento, não cabe discutir, nós até hoje estaríamos nos comunicando pelo gestual. E a reboque destas, digamos, elocubrações, vem a discussão sobre o nosso verdadeiro papel enquanto seguimos nossos caminhos nesta existência, a forma como encaramos esta nossa passagem.
A pergunta é inevitável: devemos ter uma visão clara de nossas responsabilidades morais e espirituais, de nossas obrigações, ou passaremos a vida reclamando de tudo e de todos, sem perceber que há uma Luz que guia nossos passos, nos mostrando o caminho? Não conseguimos enxergar o que se mostra tão claro, enfrentamos toda a sorte de reveses sem ter consciência da resposta que, talvez no inconsciente, sempre soubemos: viver é uma arte.
E a arte de saber viver está diretamente ligada ao nosso modo de encarar, primeiro, a nós mesmos, ou seja, o “conhece-te a ti mesmo”. A partir do momento em que iniciarmos a mudança de velhos conceitos arraigados, quando começarmos a nos reformar intimamente, erguendo bem acima as virtudes e sepultando os vícios, aí sim nossa existência tomará o verdadeiro sentido. 
Esse aprendizado pode ser lento, demorado, mas com a certeza de que tudo que enfrentarmos servirá de bagagem para nossa evolução. E, sem dúvida, independente de língua, cultura, etnia, é uma experiência maravilhosa essa arte, a arte de saber viver.

domingo, julho 28, 2013

BENDITO EXEMPLO

Durante sua estada de uma semana em terras brasileiras, o Papa, independente de religiões, deixou marcada indelevelmente sua presença, vivificando a humildade.
"Conservar a esperança, viver na alegria e deixar-se surpreender por Deus", foram as benditas palavras de Sua Santidade no Santuário de Aparecida. O “rezem por mim”, tantas vezes pronunciado, mostra não só a simplicidade do líder católico, mas também um pedido de força espiritual que certamente ele precisará, para implantar mudanças profundas na cúria romana e na administração do Vaticano.

Homens de pouca fé, homens que se deixam dominar pelo ego, homens corruptos, mirem-se no exemplo deste que nasceu Jorge Mario Bergoglio, e hoje é Francisco, o Papa, refletindo a Luz de Cristo, paradigma de humildade, simplicidade, bondade e amor.

quinta-feira, julho 25, 2013

AQUELES DIAS


Sabe aqueles dias em que você sai da cama com a sensação de não ter dormido e, de fato, não dormiu? Pois é, hoje era um desses dias. As pernas não obedeciam ao comando do cérebro que, por seu lado, não estava a fim de dar ordens pra nada. É quase um estado letárgico. Mas ao sair de casa, com o dia já indo claro, percebi que o sol teimava em me acompanhar, iluminando, clareando ainda mais os caminhos, como a me mostrar que a vida estava presente, à minha espera, só aguardando que eu também fizesse a minha parte. 
Ao mesmo tempo, ao lado do carro, percebi aquele grupo de atletas da madrugada fazendo a corridinha básica antes do trabalho. Não era uma novidade, eles estavam sempre por ali, mas hoje, coincidentemente, essa moçada “despertou” ainda mais minha atenção. Tenho certeza que esse quadro não é estranho pra você. E é assim mesmo que a coisa funciona. Sempre alguma coisa acontece ou aparece alguém nos motivando, para que a gente desperte para a vida. É tipo um sinal que vem, sabe-se lá de onde (dependendo de sua crença), a dizer: “Cara, que é isso? Sai dessa, se liga, respira fundo e vai em frente que você é o dono de sua vontade e é preciso exercitá-la sempre!”