ESCREVA SUA HISTÓRIA
Crise existencial, dúvidas sobre como e quando fazer; onde e com quem conversar sempre nos levam a esse mesmo lugar, ou seja, o lugar onde podemos conversar sem reserva (ou quase): o consultório do terapeuta.
- Será que vou deixar alguma coisa de bom nesta vida? - Foi minha pergunta, logo depois de um momento de indecisão, assim que me instalei sobre o divã.
- Bem, seu Dedé, essa é uma resposta que só mesmo o senhor pode saber, é difícil padronizar algum solução, faça uma reflexão.
- Sei... - Enquanto pensava, tentei me ajeitar; meus pés sempre ficavam pra fora, talvez apressados para sair logo daquele lugar. Melhor acomodado, prossegui:
- Li, em algum lugar, que nós devemos sempre deixar um legado, uma referência.
- Entendo. O senhor está querendo dizer que a nossa passagem terrena deve ter um propósito, é isso?
- Já sim, continue.
- Menos palavras e mais atitudes, exemplos, ações - completei. Às vezes acho que o medo ou, até mesmo, a preguiça impedem essa tomada de posição.
Silêncio. Por alguns segundos, que pareceram minutos, o consultório transformou-se em um santuário vazio, o silêncio era total.
- Essa é uma responsabilidade que todos deveríamos ter - enfim a doutora falou. - E isso só poderá ocorrer com uma abertura de consciência,
- Ah! Falando assim, a senhora até me assusta, fica mais difícil o entendimento.
- Nada disso. Já que o senhor falou por analogia, talvez entenda melhor se continuarmos dessa forma. O carro nos foi entregue para que sejamos o condutor e não o passageiro. Para muitos, talvez seja até mais cômodo seguir a opção padrão e continuar a ser um dos passageiros, deixando que os outros determinem as coisas para nós.
- O carro, nesse caso, seria a vida?
- Certo. Engrenando a vontade, dirigindo as ações com responsabilidade, refreando ímpetos, podemos determinar um melhor rumo para nossas vidas.
Mais uma vez o silêncio se fez presente e, com ele, a imaginação, à procura do que eu poderia deixar como herança-referência,o que escrever naquelas páginas, até agora, em branco. Mas, rapidamente e como se estivesse lendo meu pensamento, a doutora veio em meu socorro:
- Se ainda está em branco, comece a escrever sua história, escreva no tal livro. Visualize a direção a tomar, reveja conceitos ou mude comportamentos, mas não esqueça de que, para cada atitude, haverá uma consequência a enfrentar, certo?
E antes que eu pudesse responder, ela encerrou a consulta perguntando em tom desafiador:
- Ou o senhor só sabe escovar os dentes com a escova na mão direita?









