DE PEDRAS E CAMINHOS.
-Dra. Ana Lisa, prometo, só voltaremos a falar de política daqui a quatro anos, ou melhor, dois e isto se o tema estiver me incomodando.
-Dra. Ana Lisa, prometo, só voltaremos a falar de política daqui a quatro anos, ou melhor, dois e isto se o tema estiver me incomodando.
-Ah!Sim, acredito seu Dedé mas, como sempre digo, o consultório da psicanalista comporta todos os assuntos, desde que eles estejam perturbando o paciente.
Era a primeira visita à doutora após as eleições. Já havia estado por lá pra pegar uma receita que pedi por telefone e que, gentilmente, ela deixou com a recepcionista.
Já devidamente instalado no divã, prossegui:
-Obrigado por ter deixado a receita pronta. Não sei se a senhora ficou sabendo, mas disseram que o estoque de antidepressivos nas farmácias estava se esgotando depois das eleições... - Pensei que ela fosse se fazer de desentendida, mas me enganei:
-A bem da verdade - ela disse, com firmeza -, o quadro depressivo comporta as duas situações seu Dedé, a euforia e a tristeza, elas ocorrem gradualmente, são as conhecidas oscilações de humor. É um transtorno não muito comum, mas acontece. Portanto, o medicamento poderá ser usado tanto para uma situação como para a outra, ou seja, para os que vibraram com a vitória ou para quem ficou decepcionado com a derrota. - Dizendo isso, ela cortou qualquer outra insinuação a respeito e mudei radicalmente o foco da conversa.
-Li, mas não lembro onde, uma frase que me deixou naquele estado de "penso, logo existo". Dizia que nós seguimos pelos caminhos que a vida nos traçou. - Percebi que, antes de comentar, ela se acomodou melhor na cadeira atrás de mim.
-E o que o senhor acha disso?
-A princípio não concordo, porque entendo que cada um de nós deve fazer o seu caminho, deve tentar seguir de acordo com sua vontade.
-Ah, mas não é bem assim seu Dedé.
-Como não? - Perguntei surpreso.
-A bem da verdade, o caminho pode até já existir, mas por circunstâncias, contrárias, são tomadas novas direções, novos atalhos são criados.
-Mas então não é certo que aquilo que queremos conseguimos?
-É quase isso. Como já disse um genial poeta e escritor, há pedras no caminho e essas pedras, dizia ele, vamos recolhendo, juntando e com elas fazendo um castelo. Mas este castelo é simbólico. É um castelo feito com as pedras dos problemas, dos tropeços, do imponderável. Essas dificuldades, quer dizer essas pedras, deverão ser recolhidas, lapidadas e utilizadas na construção deste castelo imaginário, uma bela obra talvez, mas que evidentemente, nunca servirá de moradia.
Essas palavras da doutora fizeram com que, literalmente, eu colocasse os pés no chão - saindo do consultório - mas sinalizaram também o marco de uma nova caminhada.
-Telefono mais tarde marcando uma nova consulta. - disse na saída. E quando menos esperava, ouvi:
-Só por curiosidade, o senhor fez uso do medicamento por qual das razões citadas no início de nossa conversa, euforia ou tristeza?




