terça-feira, novembro 23, 2010

A felicidade no divã da Dra. Ana Lisa.
      
Quebrando o silêncio que já se fazia presente há alguns segundos na sala, comentei com minha psicanalista:
- Dizem os mais velhos, que quanto mais se vive mais se aprende e essa é, por assim dizer, uma verdade verdadeira, não doutora Ana Lisa?
 - É mais ou menos isso, como vivendo e aprendendo a jogar- ela disse -mas vamos direto ao ponto seu Dedé, qual é o problema agora?
- Não sei se é problema, mas digo isso porque quando achamos que nada de novo poderá acontecer...
- E qual é a novidade? – ela perguntou.
- A senhora deve estar sabendo da última entre os nossos congressistas em Brasília, não? Estão querendo que a felicidade seja um direito constitucional! Será que eles não têm nada mais importante para tratar?
- Calma – e é claro que eu estava ali exatamente para me acalmar – e ela insistiu - Relaxe. Vamos conversar melhor sobre isso.
- Ah, e tem mais... um dos argumentos que estão utilizando, é afirmar que muitos países já têm a felicidade como um direito civil. Ora doutora, nem sempre o que é bom para os outros, será bom para nós!
- Concordo, em parte. – E antes que eu pudesse argumentar novamente, ela prosseguiu:
- Talvez o senhor não tenha entendido bem, mas na verdade, foi apresentada uma emenda à Constituição, onde é dito que saúde, educação, trabalho e outros direitos sociais são essenciais à busca da felicidade. É isso, somente isso.
Enquanto a doutora explicava, eu pensava em como ela era bem informada, porque, cá entre nós, esse assunto  nada tinha a ver com a psicanálise. E não resisti:
- A senhora me surpreende doutora!
- Como assim? – perguntou, curiosa.
- Surpreende pelo seu conhecimento sobre os mais diversos assuntos.
- Obrigada, seu Dedé. Mas é preciso estar – como dizem atualmente – "antenada" em diferentes áreas, para poder dialogar e dar um suporte aos pacientes.
- Entendo... e já compreendo melhor essa proposta, mesmo porque – e aí também fui didático - sendo um sentimento subjetivo, cada um de nós tem uma forma própria de explicar essa tal felicidade.
- Verdade. Agora foi o senhor que me surpreendeu – disse ela, ao mesmo tempo em que se levantava da poltrona, num claro sinal de que nossa conversa estava terminada. - Até a próxima seu Dedé.
- Obrigado.

Ao sair, dei uma olhada para o céu. Era uma tarde de novembro, sem chuva. Brancas nuvens em forma disforme se espalhavam preguiçosamente sobre o céu azul. Leve brisa soprava por cima das copas das árvores provocando tremores nas folhas, talvez receosas de caírem ao chão. Por outras vezes, o branco dos cirros desaparecia como a brincar de esconder, deixando à mostra somente o azul infinito, indecifrável, misterioso. Um quadro que a natureza nos pinta e que, imperceptivelmente, emoldura nossos dias.
Isso, para mim, representa felicidade.
E para você?




terça-feira, novembro 09, 2010

DE PEDRAS E CAMINHOS.

-Dra. Ana Lisa, prometo, só voltaremos a falar de política daqui a quatro anos, ou melhor, dois e isto se o tema estiver me incomodando.
-Ah!Sim, acredito seu Dedé mas, como sempre digo, o consultório da psicanalista comporta todos os assuntos, desde que eles estejam perturbando o paciente.
Era a primeira visita à doutora após as eleições. Já havia estado por lá pra pegar uma receita que pedi por telefone e que, gentilmente, ela deixou com a recepcionista.
Já devidamente instalado no divã, prossegui:
-Obrigado por ter deixado a receita pronta. Não sei se a senhora ficou sabendo, mas disseram que o estoque de antidepressivos nas farmácias estava se esgotando depois das eleições... - Pensei que ela fosse se fazer de desentendida, mas me enganei:
-A bem da verdade - ela disse, com firmeza -, o quadro depressivo comporta as duas situações seu Dedé, a euforia e a tristeza, elas ocorrem gradualmente, são as conhecidas oscilações de humor. É um transtorno não muito comum, mas acontece. Portanto, o medicamento poderá ser usado tanto para uma situação como para a outra, ou seja, para os que vibraram com a vitória ou para quem ficou decepcionado com a derrota. - Dizendo isso, ela cortou qualquer outra insinuação a respeito e mudei radicalmente o foco da conversa.
-Li, mas não lembro onde, uma frase que me deixou naquele estado de "penso, logo existo". Dizia que nós seguimos pelos caminhos que a vida nos traçou. - Percebi que, antes de comentar, ela se acomodou melhor na cadeira atrás de mim.
-E o que o senhor acha disso?
-A princípio não concordo, porque entendo que cada um de nós deve fazer o seu caminho, deve tentar seguir de acordo com sua vontade.
-Ah, mas não é bem assim seu Dedé.
-Como não?  - Perguntei surpreso.
-A bem da verdade, o caminho pode até já existir, mas por circunstâncias, contrárias, são tomadas novas direções, novos atalhos são criados.
-Mas então não é certo que aquilo que queremos conseguimos?
-É quase isso. Como já disse um genial poeta e escritor, há pedras no caminho e essas pedras, dizia ele, vamos recolhendo, juntando e com elas fazendo um castelo. Mas este castelo é simbólico. É um castelo feito com as pedras dos problemas, dos tropeços, do imponderável. Essas dificuldades, quer dizer essas pedras, deverão ser recolhidas, lapidadas e utilizadas na construção deste castelo imaginário, uma bela obra talvez, mas que evidentemente, nunca servirá de moradia.
Essas palavras da doutora fizeram com que, literalmente, eu colocasse os pés no chão - saindo do consultório - mas sinalizaram também o marco de uma nova caminhada.
-Telefono mais tarde marcando uma nova consulta. - disse na saída. E quando menos esperava, ouvi: 
-Só por curiosidade, o senhor fez uso do medicamento por qual das razões citadas no início de nossa conversa, euforia ou tristeza?
-Ah, essa resposta, infelizmente, nem a senhora nem os leitores terão. Afinal, o voto além de ainda ser obrigatório também é secreto.




"Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo... (Fernando Pessoa).