domingo, janeiro 24, 2010

O SOM DO SILÊNCIO.
“Cada vez que nossos lábios cedem ao impulso da queixa, quase sempre estamos simplesmente julgando a vida que nos é própria. Observa, assim, em ti mesmo e deixa que a consciência te vigie a palavra.
Em toda conversação, na qual sejamos induzidos a examinar o comportamento do próximo submetido à censura alheia, vasculhemos o íntimo, concluindo se não teríamos praticado incorreções iguais ou maiores no lugar dele. E, em todas as circunstâncias, não nos esqueçamos de que, em nos queixando de alguém, estaremos intimando, automaticamente, a nós mesmos a viver em nível mais alto e a fazer coisa melhor.”
Emmanuel, por Chico Xavier, no livro “Palavras de Vida Eterna”.


Desnecessário acrescentar palavras, conselhos, profundas divagações. A convocação a nos aperfeiçoarmos a cada dia, vigiando nossos atos e nossas palavras, está reluzindo acima tal qual o sol em águas cristalinas. Vamos então nos abstrair do mundo exterior e, como dizem os mestres esotéricos, ouvir aquela voz que  -segundo a crença de cada um de nós-  poderá ser de um ente superior, do seu anjo da guarda, do seu mentor, do seu “eu” interior ou de sua intuição. Ela vai nos incitar a esse aperfeiçoamento. É um aprendizado que ninguém poderá nos ensinar. Sabe por que? Porque o máximo que uma pessoa conseguirá  passar é uma informação e só a informação não basta. É necessário que o som do silêncio nos traga as “palavras” que são emanadas e fluem no ar e que só, cada um de nós, poderá ouvir. Só saberemos e conheceremos  quando vivenciarmos, quando sentirmos diretamente o que o som do silêncio está dizendo. A propósito, você deve conhecer esta frase:  “Quem tiver ouvidos para ouvir que ouça!”*  É uma experiência fantástica.




 *(Marcos 4: 9)

 Simon e Garfunkel

segunda-feira, janeiro 11, 2010

De volta das férias.
Vocês e eu, é claro, já estávamos sentindo falta da Dra. Ana Lisa, a minha psicoterapeuta. É necessário explicar que nem eu nem ela desistimos: eu, da terapia e ela de me atender. Simplesmente, as férias de final de ano interromperam temporariamente as consultas.
Nessa época, ela vai visitar os parentes que ainda residem em Vacaria, no Rio Grande do Sul (já comentei que ela é nascida nessa cidade). Lá ainda estão os remanescentes dos primeiros Lambruscone que imigraram da Itália no século dezenove. Daí o nome da doutora, Ana Lisa Lambruscone
Dito isto, estou de volta ao consultório e percebo que ela também aproveitou para dar uma modernizada no ambiente.
-Está bem melhor agora doutora  – comentei, já deitado numa chaise long –  mais confortável, mais aconchegante...
-Obrigada seu Dedé, já não era sem tempo. Um ambiente assim, mais “clean”, facilita psicologicamente a interação. Bem, mas vamos ao que interessa. Fale... como o senhor está se sentindo...
-A bem da verdade, doutora Ana Lisa, essa época de Natal e ano novo, teria tudo para ser alegre, festiva, mas a senhora sabe, essas tragédias que aconteceram encenaram uma verdadeira tragicomédia nesse imenso palco onde, nós seres humanos, atuamos. Alegria e tristeza; prazer e dor, trazem de volta velhos questionamentos: o porquê disso, a razão daquilo. Isso abala e mexe com as emoções de qualquer pessoa, até as mais insensíveis não é mesmo?
-Evidente, seu Dedé. Nestes nossos encontros são levados em consideração todos os fatores que entram em jogo em um quadro clínico e sua cura. A analogia feita com uma peça tragicômica, é uma maneira sensata de abordagem - e após uma pequena pausa  prosseguiu -  isso mostra uma sensível melhora no seu modo de encarar as situações.
E, enquanto ela já se levantava da poltrona, comentei satisfeito:
-Obrigado, mas isso se deve à sua competência doutora Ana Lisa e, se me permite, nunca um nome esteve tão bem ligado à uma profissão.
-Então tá, seu Dedé – disse quase sorrindo – até nossa próxima sessão.
-Até doutora.
Ainda bem que ela não lê pensamentos, porque a coincidência não fica apenas no nome não. No sobrenome também, ela não despreza uma taça de um bom vinho...

terça-feira, janeiro 05, 2010

Assim falou Agostinho.
Nos ensinam os dicionários que orador é aquele que ora ou discursa em público e como discurso não é o nosso tema, isto me induziu a trazer para juntos compartilharmos, as palavras de um ser humano que um dia encontrou a iluminação espiritual. Um filósofo, orador, um pagão, um pecador que por Graça Divina se converteu.
É dele, esta exegese sobre a Oração: “Só no recolhimento de uma vida oculta é que podemos gozar e amar a beatitude da verdadeira felicidade. No recolhimento, sobrevém aquela alegria genuína e profunda que nada tem com aquilo que geralmente se chama alegria. Bondade, amor, piedade, inocência do coração, modéstia, domínio sobre ti mesmo – são coisas que deves possuir sempre: na vida pública e na solidão; no meio dos homens e a sós contigo em casa; na conversa e no silêncio; no trabalho e no repouso. Sempre deves conservar estas coisas – e tudo isto está no teu interior. Entra no teu íntimo! Não vás para fora – entra em ti mesmo! No homem interior é que habita a verdade.
No recesso da Alma racional, bem no homem interior, aí é que deves procurar e implorar a Deus. É ali que Ele quis habitar. Os homens clamam – Ele, porém, ensina no silêncio. Os homens falam com palavras – Ele, porém, fala com pensamentos de discreto mistério. Fala ao espírito do homem, não exteriormente pelo ouvido e pela vista, mas interiormente pelo coração. Não é com palavras, não é com letras que a Verdade costuma falar. Aos corações atentos, ela fala no interior, ensinando sem ruído, iluminando com a Luz do Espírito. A oração é um clamor da Alma e não da voz ou dos lábios. É no íntimo que soa este clamor – e Deus o ouve.
Quantos são os que clamam com a voz - e são mudos no coração! Falar muito na oração é lembrar desnecessariamente o necessário – ao passo que orar muito é bater, com o Espírito perenemente piedoso, à porta daquele ao qual oramos. E isto se faz antes suspirando do que discursando, antes chorando do que falando. Muito amor, não muitas palavras – seja esta a tua oração!”

Palavras de Agostinho, nascido em Tegaste, norte da África, na atual Argélia, em 354 e que a Igreja Católica santificou, como Santo Agostinho. Converteu-se cristão aos 32 anos. Tornou-se monge, sacerdote, bispo. Morreu aos 76 anos, em Hipona, também na atual Argélia.